segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Como a animação digital está transformando o negócio do cinema

Quando Ivan Sutherland, um estudante de computação sem grande talento para o desenho à mão livre, apontou uma caneta que emitia luz para a tela de um terminal de computador, em 1961, uma revolução silenciosa começava. Com seu software rudimentar, Sutherland inventou os gráficos vetoriais, uma forma de desmembrar o desenho em traços que podem ser editados separadamente. Essa e outras facilidades fascinaram hordas de programadores que, até ali, só conheciam telas negras apinhadas de letras e números. Eles passaram a desenhar e explorar a capacidade das novas ferramentas.
Os tempos mudam, mas a história segue. Em 1991, um desenhista limitado, mas transbordante de criatividade, se apaixonou pela arte de desenhar com bits e bytes. Seu nome é Carlos Saldanha, o brasileiro que concluiu seu terceiro longa-metragem, Era do Gelo 2. 'Não desenho maravilhosamente bem à mão livre, mas no computador conseguia criar as imagens que vinham à minha cabeça', disse a ÉPOCA. Saldanha foi para Nova York estudar ao perceber que no Brasil o campo da computação gráfica ainda era incipiente. Hoje, já co-dirigiu os sucessos Era do Gelo e Robôs.
Animações geradas por computador podem ser encontradas atualmente em quase todos os filmes de sucesso. 'Em Hollywood, quase todo filme tem algum tipo de interferência, mesmo que não seja visível', diz Alceu Baptistão, sócio da Vetor Zero, uma das produtoras de animação digital mais prestigiadas do Brasil. Diretores tradicionais como Martin Scorsese passaram a usar cenas digitalizadas em seus últimos filmes. Até um imbróglio envolvendo o ator Richard Gere e o governo chinês já foi resolvido com a ajuda do computador. No filme Justiça Vermelha, de 1997, seu personagem deveria andar por uma rua de uma cidade chinesa. Como Gere está proibido de entrar na China, foi filmado numa cidade parecida e o cenário trocado no computador.
Mas o caminho até a aceitação da animação foi longo e tortuoso. 'No começo, as pessoas desacreditaram na animação por computador. Diziam que os desenhos não tinham alma', diz Baptistão. As coisas começaram a mudar quando, nos estúdios de George Lucas, surgiram os softwares com resultados mais realistas, chamados renderizadores. Trata-se de programas que dizem ao computador tudo o que ele precisa saber antes de finalizar cenas em três dimensões, como posição dos objetos, fontes de luz, câmeras e efeitos atmosféricos.
Um estudante de computação aplicado, que amava os filmes de George Lucas, decidiu mostrar ao mestre o que os computadores poderiam fazer um dia. Em 1980, numa feira da computação gráfica, Loren Carpenter, que havia criado uma simulação de vôo para a Boeing, apresentou seu software REYES a uma equipe da Lucas Arts. A sigla REYES quer dizer 'Renderiza tudo o que seus olhos já viram'. A promessa foi cumprida. Ao final do dia, Carpenter já estava contratado. Seu programa foi aperfeiçoado por uma turma que incluía John Lasseter e passou a se chamar Renderman. Até hoje, ele é o padrão para efeitos de qualidade cinematográfica. Lasseter e outros que trabalhavam com Lucas se emanciparam e criaram uma marca que hoje é sinônimo de animação computadorizada: a Pixar. Levaram junto o Renderman. A Lucas Arts é um dos melhores exemplos de como os computadores ganharam respeito em Hollywood. Quando a equipe de animação digital foi criada, havia duas pessoas. Hoje, todos os empregados dos efeitos especiais fazem parte dela.
Desde 1985, quando o Renderman foi usado para animar um vitral no filme O Enigma da Pirâmide, o programa já deu vida a personagens de filmes como O Exterminador do Futuro, Alien, Homem-Aranha, além de todas as animações da Pixar, de Toy Story a Os Incríveis. Como diz John Lasseter, um dos pais da idéia: 'É maravilhoso vir para o trabalho todos os dias e ver algo que você nunca viu na vida'.

Em um aspecto, a relação de Hollywood com a animação digital aproxima-se de uma perigosa dependência. Os acertos feitos em computador na pós-produção, como correção da cor do céu ou da posição de um ator, são considerados indispensáveis hoje em dia. Como o cachê de um superastro custa milhões de dólares, tê-lo no set por mais um dia para refazer uma tomada pode custar uma fortuna. Usar a mesma imagem e trocar o céu por outro, no computador, custam muito menos. Por isso, surge nos sets uma cultura de desleixo e até um bordão: 'Fix it in post' (conserte na pós-produção). Um tripé, por exemplo, que fica na cena é um problema fácil de resolver antes do grito de ação. 'Na pós-produção, dependendo da tomada, limpar um tripé de uma cena pode demorar até uma semana', diz Baptistão.
Para os filmes totalmente digitais, como Era do Gelo 2, vale outra regra. O trabalho duro quase sempre se reverte num melhor resultado financeiro. 'A animação é uma máquina de fazer dinheiro. Mesmo um filme mediano acaba fazendo três ou quatro vezes mais dinheiro que um tradicional', diz Carlos Saldanha. Os artistas que se dedicam a polir as seqüências animadas em longas-metragens passam por volta de quatro anos lidando com os mesmos personagens no dia-a-dia. 'O trabalho artístico e físico de criar um filme de animação é tão grande quanto o de uma animação tradicional', afirma Saldanha.
As inúmeras idas e vindas do processo criativo podem trazer boas surpresas, como Scrat, o esquilo hiperativo da Era do Gelo. A seqüência em que o bichinho luta para esconder suas nozes durante uma avalanche era uma idéia de Saldanha que não estava no roteiro original, mas ficou tão boa que ganhou espaço entre os personagens principais. 'Eu queria um bicho bem pequeno para contrastar com a grandiosidade da Era Glacial', afirma Saldanha. A batalha do esquilo contra a avalanche parece semelhante à da própria animação digital. As melhores histórias e idéias contra a resistência de um colossal sistema de estúdios. Como no filme, já sabemos para quem torcer.

DO BULE AO ESQUILO
As mudanças na animação digital,desde sua criação

1961 - Ivan Sutherland, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), usou uma caneta de luz para fazer desenhos no Sketchpad, programa escrito por ele.
1974 - Na Universidade de Utah, EUA, um grupo de pioneiros demonstrou diversos objetos digitalizados. Um deles pegou o bule que tinha em casa. Virou peça de museu.
1982 - A Disney bancou "Tron", um filme em que um homem era engolido por um computador. Apesar dos 30 minutos de animação digital, o roteiro ruim acabou em fracasso nas bilheterias.
1985 - A primeira animação 3-D em um longa-metragem foram os vitrais de "O Enigma da Pirâmide".
1988 - O primeiro Oscar da Pixar veio com a animação do curta-metragem "Tin Toy", sobre as estripulias de um bebê e seus brinquedos. Foi o precursor direto do "Toy Story".
1992 - Com efeitos refinados como reflexão e transparências, "O Exterminador do Futuro 2" marcou a aparição do primeiro personagem totalmente digitalizado.
1993 - Os dinos de "Parque dos Dinossauros" conquistaram Steven Spielberg. De lá para cá, ele acha espaço para efeitos de computador em todos os seus filmes.
1998 - A cena da invasão da praia de Omaha em "Dia-D" foi recriada digitalmente a partir de fotografias.
2003 - Em "Procurando Nemo", pela primeira vez um cenário natural criado em computador, no caso o fundo do mar, ficou com um resultado melhor que a realidade.
2006 - "Era do Gelo 2" é o auge da evolução técnica possível no atual estágio dos gráficos de computador. Tem efeitos belíssimos para o gelo e realismo no movimento dos pêlos dos animais.

3 comentários:

Ana Goul disse...

Amom muitooooooooooooo isso.

demais demais demais

Daniel Confortin disse...

Muito bom artigo! Porém faltou citar o CASSIOPÉIA primeiro longa de animação totalmente computadorizado, produzido no Brasil, antes de Toy Story... Claro, eu sei, não figura nas cartilhas escolares, mas foi... olhem o post seguinte =)

Wendel Azevedo disse...

Grande Állan,baita texto cara,esse tal de cinema ae é um negócio que quando descobriu as maravilhas que podiam ser feitas no mundo digital, agarrou de vez a idéia e transformou em dinheiro de verdade,grandes produções e filmes com efeitos não apenas especiais como do Jurassic,mas efeitos milionário$$$. hehehehe. Muito boa postagem.